Oitavo poema: não parece a vocês que as formas e as coisas têm uma espécie de parentesco, um DNA oculto, inserido entre o momento de existir e o de não existir?
O Gato, As Estrelas, A Fada
Gato e estrelas relacionam-se incestuosos.
Mas que de família tem gato; que de família têm estrelas?
Tem de família que gato brilha; estrela brilha.
Na família dos brilhos, brilha mais o estofo vetusto do gato, ou o
[semblante faceiro das estrelas?
Gato e estrelas transam sob o luar das famílias das coisas do mundo.
E o cometa, um tio distante, sangue do sangue do gato, que com ele
[compartilha a cauda.
E o buraco negro, que com o gato compartilha o ânus.
E o sol, mais estrela que as estrelas, que nada tem em comum com o [gato.
(linhagem distinta)
A mãe de todas as linhagens é a fada, bicho que brilha azul como não
[brilham amarelas as estrelas;
e que não existe, e por isso compartilha com o gato a experiência de
[saber como é um dia estar morto.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
terça-feira, 10 de abril de 2007
Sétimo poema: sempre fui um leitor razoável de ficção científica e fantasia. Influência do meu pai, que adorava Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. Depois, acabei deixando esses bons gêneros um poucos afastados paran cuidar mais da considerada literatura "séria". Recentemente, percebi que a fantasia é bem mais séria que qualquer tipo de realismo. Parece-me que há coisas nas nossas possiblidades de pensamento que só se executam através de uma resolução do real pela fantasia. O poema a seguir, portanto, é sobre exatamente isso que vocês estão pensando mesmo. Não tem muita fabulação ou acessórios cretinos de representação. Tentei simplesmente pensar um pouco o gênero. Escrevi há poucos dias.
Ficção Científica
O golem é uma figura mítica – não científica.
Abstrai-se um zunido em colapso.
No útero do meu ouvido, apenas um zumbido.
Não há nada para se fazer diante da placidez de um conto de ficção [científica.
Áridas carcaças metálicas.
Na terra do sol, um poente apocalíptico.
Aftermath.
Consciência que regurgita.
Sigo mascando entranhas de latão.
No zênite da fantasia fabulística
há um revés de humanidade.
O golem rumina.
Duplo-cortante, a fantasiação adorna couros de ciência.
Quem sabe não é aquele devir longínquo?
Flashfoward.
Recalque pregresso.
Pudera eu sonhar com armaduras de ouro, espaçonaves de diamante.
Mas se era tudo mesmo a respeito da consciência,
era mais sobre um imaginar tergiversante.
Desembarcar é sempre uma comoção auto-flagelante.
Há um tempo morto que unifica o conhecer-se e o enclausurar-se.
Olhos vibram diante desse romantismo cheio de piercings.
Discurso rosa-choque, que ebule.
Mas as máculas do calor e do vento neutralizam o futuro.
Golens beijam na boca de robôs.
Fadas entregam seus corpos aos ciborgues.
A partir da chuva de gases alucinógenos brotam flores científicas.
Dos nossos delírios esparramados no deserto
restam apenas visões de ficção.
Ficção Científica
O golem é uma figura mítica – não científica.
Abstrai-se um zunido em colapso.
No útero do meu ouvido, apenas um zumbido.
Não há nada para se fazer diante da placidez de um conto de ficção [científica.
Áridas carcaças metálicas.
Na terra do sol, um poente apocalíptico.
Aftermath.
Consciência que regurgita.
Sigo mascando entranhas de latão.
No zênite da fantasia fabulística
há um revés de humanidade.
O golem rumina.
Duplo-cortante, a fantasiação adorna couros de ciência.
Quem sabe não é aquele devir longínquo?
Flashfoward.
Recalque pregresso.
Pudera eu sonhar com armaduras de ouro, espaçonaves de diamante.
Mas se era tudo mesmo a respeito da consciência,
era mais sobre um imaginar tergiversante.
Desembarcar é sempre uma comoção auto-flagelante.
Há um tempo morto que unifica o conhecer-se e o enclausurar-se.
Olhos vibram diante desse romantismo cheio de piercings.
Discurso rosa-choque, que ebule.
Mas as máculas do calor e do vento neutralizam o futuro.
Golens beijam na boca de robôs.
Fadas entregam seus corpos aos ciborgues.
A partir da chuva de gases alucinógenos brotam flores científicas.
Dos nossos delírios esparramados no deserto
restam apenas visões de ficção.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
Sexto poema: às vezes, é preciso encontrar boas metáforas. Disseram-me, certa vez, que fazer poesia não é simplesmente enfileirar metáforas, como eu fazia. O grande Roman Jakobson, porém, dizia que a poesia é toda estruturada em metáforas, enquanto a prosa seria a modalidade escolhida pela metonímia para se manifestar. É claro: grande lingüista que era, Jakobson sabia que a linguagem poética é uma condensação mais paradigmática do que sintagmática. A poesia é uma acumulação vertical. O próprio acúmulo de linguagem sobreposta. Um grande poliedro que iça simbolizações de todas as direções. Pois bem: em homenagem a Jakobson, vai um poema que tem uma única boa metáfora.
O Homem Ultravioleta
O de onde vêm as coisas do homem
me esgota porque só a cabeça ferve.
Se do homem só vemos o talo,
só vemos o talo do corpo embrulhado no vento.
O talo, e as folhas (quiçá as flores) são deuses são invisíveis e perfuram
[esse coração imaginário.
O de onde vêm as coisas do homem
é suprasônico.
Talvez os cachorros o saibam
e captem no éter a vergonha que embaralha o suco que se espreme
[quando se espreme o homem.
O de onde vêm as coisas
deixa olhos irritadiços com a infravermelhidão das coisas intestinais de
[todos os homens.
O Homem Ultravioleta
O de onde vêm as coisas do homem
me esgota porque só a cabeça ferve.
Se do homem só vemos o talo,
só vemos o talo do corpo embrulhado no vento.
O talo, e as folhas (quiçá as flores) são deuses são invisíveis e perfuram
[esse coração imaginário.
O de onde vêm as coisas do homem
é suprasônico.
Talvez os cachorros o saibam
e captem no éter a vergonha que embaralha o suco que se espreme
[quando se espreme o homem.
O de onde vêm as coisas
deixa olhos irritadiços com a infravermelhidão das coisas intestinais de
[todos os homens.
quarta-feira, 28 de março de 2007
Quarto e quinto poemas: já que, num post anterior, falei dos poemas-irmãos de "A Voz do Trovão", aqui vão eles, a título de comparação. Perdoem a naïvité formal e temática de ambos. São velhos. "Mundo Míope" questiona alguns a prioris que julgamos ser iguais para todos, como os sentidos. "Noite do Logos" é sobre passagens... especialmente aquela, antiga, do mito à razão. Pena que os imaginei um pouco mais abstratos (os temas requerem, não?), e saíram bem narrativos.
Mundo Míope
Vejo borrões: se aproximam e transgridem a escala de suas limitações.
Neste mundo as formas não são só foscas.
São energéticas e pulsam revelando a vida por trás das coisas inertes.
Caminho e não me desoriento
porque a miríade caleidoscópica das coisas foscas
são orientação.
Bloqueio o parâmetro da vida vida.
Desaparecem limites de linhas e contornos.
Um universo modesto de clareza
se apresenta como visão de inseto.
Sem véu de torpeza
ou instrumento de engano.
Chego quase a tocar a realidade.
Só não consigo
porque tenho outros sentidos para adulterar.
Noite do Logos
Vaga-lumes que bailam na noite
volteiam entre blocos de escuro que deslizam pela luz.
Imerso em onírico universo de clarezas insuficientes
que se desgastam crescendo,
mas só conseguem mover,
o mundo já não é mítico como quando existia uma Lua e um Sol.
O nosso mundo entremeado de milhares de astros noturnos,
Mundo Míope
Vejo borrões: se aproximam e transgridem a escala de suas limitações.
Neste mundo as formas não são só foscas.
São energéticas e pulsam revelando a vida por trás das coisas inertes.
Caminho e não me desoriento
porque a miríade caleidoscópica das coisas foscas
são orientação.
Bloqueio o parâmetro da vida vida.
Desaparecem limites de linhas e contornos.
Um universo modesto de clareza
se apresenta como visão de inseto.
Sem véu de torpeza
ou instrumento de engano.
Chego quase a tocar a realidade.
Só não consigo
porque tenho outros sentidos para adulterar.
Noite do Logos
Vaga-lumes que bailam na noite
volteiam entre blocos de escuro que deslizam pela luz.
Imerso em onírico universo de clarezas insuficientes
que se desgastam crescendo,
mas só conseguem mover,
o mundo já não é mítico como quando existia uma Lua e um Sol.
O nosso mundo entremeado de milhares de astros noturnos,
[pulsantes esféricos etéreos fugazes.
Bailando no lustre dos meus olhos:
as divindades se subdividiram.
Crescem no meu ventre como esperança.
Mas não dou à luz uma crença impotente.
Bailando no lustre dos meus olhos:
as divindades se subdividiram.
Crescem no meu ventre como esperança.
Mas não dou à luz uma crença impotente.
sábado, 24 de março de 2007
Terceiro poema: esta é uma assumida tentativa de personificar um certo orientalismo, aliada a uma certa geometria dentro do tema. É um poema recente, de 2006. A idéia é falar do vôo através do seu avesso.
Vôo
O vento é a subtração do vôo.
A asa, lâmina asséptica no desvario sem coração do vento.
Moscas e suas tonterias.
Mais que voar, essas coisas obedecem à telepatia do vento.
Pássaros negros e seus recortes do céu.
Há um bocado de geometria no espaço aéreo.
Vento e vôo: yin e yang.
Não há no pássaro a liberdade de saber que seu vôo é uma parede.
Os insetos já sabem que são tamborilados pelas agruras de um meio
[mais estéril, mais sisudo, rancoroso: mais éter.
O inseto é nada mais que um maldito inseto, para o vento.
Já um condor teria o peso de uma flecha prateada, empestada em [sangue.
Mas até o vento obedece à gravidade.
E até a gravidade, à relatividade.
Daí o triunfo das asas, fantoches de fantasmas.
Meios existem para serem perfurados.
A aerodinâmica, para ser vencida.
O vôo jamais deveria ser metáfora para se galgar altos saltos [imaginativos.
Como prisão, o vôo precisa libertar sua feição claustrofóbica.
Uma libélula não passa de um barquinho.
O canário pode, é triste, ser confundido com o sol.
O avestruz, um bicho leve, pode voar.
Vôo
O vento é a subtração do vôo.
A asa, lâmina asséptica no desvario sem coração do vento.
Moscas e suas tonterias.
Mais que voar, essas coisas obedecem à telepatia do vento.
Pássaros negros e seus recortes do céu.
Há um bocado de geometria no espaço aéreo.
Vento e vôo: yin e yang.
Não há no pássaro a liberdade de saber que seu vôo é uma parede.
Os insetos já sabem que são tamborilados pelas agruras de um meio
[mais estéril, mais sisudo, rancoroso: mais éter.
O inseto é nada mais que um maldito inseto, para o vento.
Já um condor teria o peso de uma flecha prateada, empestada em [sangue.
Mas até o vento obedece à gravidade.
E até a gravidade, à relatividade.
Daí o triunfo das asas, fantoches de fantasmas.
Meios existem para serem perfurados.
A aerodinâmica, para ser vencida.
O vôo jamais deveria ser metáfora para se galgar altos saltos [imaginativos.
Como prisão, o vôo precisa libertar sua feição claustrofóbica.
Uma libélula não passa de um barquinho.
O canário pode, é triste, ser confundido com o sol.
O avestruz, um bicho leve, pode voar.
quarta-feira, 21 de março de 2007
Segundo poema: "A Voz do Trovão" eu escrevi há mais ou menos 4 ou 5 anos, e é um poema bastante problemático, porque sempre tenho dúvidas se devo quebrar a sintaxe em construção na dinâmica do texto ou se devo utilizar versos mais longos, estilo que eu adotaria nos anos posteriores. Ele sofreu várias reformulações até chegar à forma que estou postando aqui, e ainda sinto que ele ainda não encontrou sua forma de repouso ("forma de repouso" é como chamo o poema quando ele finalmente decide descansar, fechar seu organismo, inteirar-se, cerrar-se para sempre. Uma mistura de morte e maturidade). É claro que sempre olho com desconfiança para esses poemas velhos, mas tenho um carinho especial por esse. Ainda acho que é uma das idéias mais legais que eu já tive, junto com seus poemas-irmãos "Noite do Logos" e "Mundo Míope". Todos eles trazem à tona o meu fascínio infantil por aquilo que é intangível, de representação abstrata, como o som, a razão, a visão, etc...
O que acham disso tudo? Comentem aí!
A Voz do Trovão
Rio de luz serpenteia nuvens pra se encavar no buraco.
De onde vem o silvo do trovão?
Claridade embalsamada nos meus olhos:
e meu temor sem sentir.
O que se vê é o que se ouve num espaçotempo-delay.
O relâmpago lança a terra como estupro.
A terra geme; aviso de dor.
De quais clareiras vêm os barulhos soturnos, que dançam nos ventos,
nos encantam sem aviso,
e demolem nossa percepção comum?
Já que a voz do homem vem das entranhas:
precisa implodir para saltar como jato de gozo para a liberdade vã [mortífera.
A voz do homem nasce em mundo completo e concentrado, e separa-se,
[fragmento de vida que apodrece, para morrer no ébrio das coisas [silenciosas.
O que acham disso tudo? Comentem aí!
A Voz do Trovão
Rio de luz serpenteia nuvens pra se encavar no buraco.
De onde vem o silvo do trovão?
Claridade embalsamada nos meus olhos:
e meu temor sem sentir.
O que se vê é o que se ouve num espaçotempo-delay.
O relâmpago lança a terra como estupro.
A terra geme; aviso de dor.
De quais clareiras vêm os barulhos soturnos, que dançam nos ventos,
nos encantam sem aviso,
e demolem nossa percepção comum?
Já que a voz do homem vem das entranhas:
precisa implodir para saltar como jato de gozo para a liberdade vã [mortífera.
A voz do homem nasce em mundo completo e concentrado, e separa-se,
[fragmento de vida que apodrece, para morrer no ébrio das coisas [silenciosas.
segunda-feira, 19 de março de 2007
Primeiro poema: dando continuidade à argumentação perdida e fugaz do primeiro post, um poema um tanto quanto venenoso sobre alguns tipos de dubiedade.
Vassoura de Bruxa
Mas há também na vida uma vassoura de bruxa
rasante que flecha e aleija
meus braços da cabeça
minhas pernas da mente.
Pois há nas paredes propostas de sexo misturadas a melecas secas
férteis que ilustram
meus pênis da cabeça.
minhas vaginas da mente.
Mesmo que haja em cada escultura de Rodin as digitais de todos aqueles
[que fazem de suas vidas desobedecer às regras básicas
mortais que dilaceram
meus olhos da mente.
meu paladar da cabeça.
Já que houve no tempo a primeira rachadura que se esfarelou e ruiu o
[maior de todos os templos romanos
totais, pulverizados, agora dentro da minha cabeça
que desaparece tal qual
as idéias do corpo
e os pensamentos da carne.
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