segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Mais arqueologia
Poema IV
É simples:
Porque às vezes é necessário que façamos isso.
Por mais que a carga, o chumbo, as balas
retornar fazer te podem não elas, não !
por mais que aquela catedrática, a Lua, a morte de um parente:
e se libertassem as algemas da sua alma?
Temos este presente incrível, com o qual nada podemos fazer
Podemos decorar nossos pés, nossas unhas, nossas peles: derramar rios [d’água invencíveis.
Para que assim possamos nos restabelecermos.
Devemos, porque podemos, retirar este pedaço de nós.
As lágrimas existem para filtrar nossa mente.
PS: esse "poema" tem um verso invertido. Coisa de quem está ansioso por inventar alguma coisa... santa ingenuidade...
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Poemas e outros poemas
Poema I
Nós estamos em aberto
esquecemos vicissitudes
abrimo-nos comparativamente
a um eterno alvorecer
que é nossa máscara de transformação.
Quero andar na direção oposta
e deparar-me com a barreira invisível
que nos coloca
e rodeia, e consome.
Andar até o limite do universo
e descobrir que até o infinito
tem para nós sua finitude.
terça-feira, 11 de setembro de 2007
Back in black
O primeiro deles, escrito quando eu dava meus primeiros passos nessa arte complicada (e ainda não saí deles), está carregada de ingenuidades, mas conserva uma coisa que sempre vai estar presente no que escrevo, ou seja, na idéia que tenho do que seja a realidade: a noção de que as coisas abstratas estão margeando tudo o que entendemos como importantes, e que essas representações são o que mais próximo podemos ter de algo como uma espécie de divindade ou lógica cósmica. Lá vai:
Tudo
está.
sob que perspectiva?
é um desnovelo.
desencargo único da consciência
aonde posso planar
fingindo que as barreiras impostas ao meu pensamento são invisíveis.
O ser é um ente que fuma
e se desfaz em névoa.
O céu é o vácuo
por onde podemos nos tornar tudo.
Este segundo poema tem um valor especial. Foi o último que escrevi e faz uma reflexão (como se fosse uma espécie de "ensaio poético") sobre a paternidade a partir de uma pessoa que a desconhece. Tem a ver com meu próprio pai, pai da antencedência.
Pater
Paternidade é o pai da antecedência.
Faço uma viagem ao mundo dos micróbios:
Há um descolar-se meio tonto, meio sem saber.
Um filho deve nascer de um descolar casual.
Sofre de um trancamento masculino.
Passa por um apartamento genético.
Como num timbre matemático, o filho (filho do pai, não da mãe) vai
[ziguezagueando as coisas, quase pronto para se encadear, se dividir [novamente.
Sem umbilicalidade, o filho acena para o pai, de longe.
Encadeia-se como se fosse um efeito do cosmos, uma afeição automática
[das coisas por elas mesmas.
Compaixão por substancialidade.
O filho desenrola-se, ainda um apêndice, no matagal cheio de pulgas do [mundo.
O pai estatifica-se em seu ato primordial de preceder.
Antecede, e isso basta. Isso cria e delineia o próprio ato parental.
Pai, de uma importância cronológica, sintática.
Sem austeridade, o pai se aloja em sua posição de anterioridade, que vai
[se desintegrando.
O mundo se abre, vetusto.
O pai se torna topo da cadeia.
Atinge o céu, de certa forma; ascende.
Há um momento, então, em que o filho escreve a liturgia das coisas.
O pai se torna lenda.
Vale-se de seu princípio como princípio.
O filho é obrigado a mergulhar num universo passado
e costurar uma partitura de mundo.
Procura um aceno cíclico,
adentra nas pupilas do pai,
e recolhe, em assombro mitológico, os signos de uma existência em [origem.
O que é remoto cicatriza a ambigüidade do que é segundo, prole.
Completo, re-significado, o filho então também se torna pai.
E passa também a legar.
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
Crepúsculo do Cinema
Escrevi um poema chamado "Antonioni" há uns cinco anos. Acabei esquecendo-me dele, porque, digamos, envelheceu mal. Falava sobre uma incapacidade de seguir as causas e efeitos da realidade, justamente porque, numa realidade um tanto quanto "virtual", só sobrariam pausas, fotogramas de realidade, pixels de verdade. No final, ficou algo mais a ver com Mário Peixoto do que com Antonioni. Não é grande coisa, mas vá lá, ressucitá-lo-ei. Rest in peace, Antonioni.
Antonioni
e são só pausas
todo este momento
pausas no futuro inacabado.
a mochila nas costas.
as aves.
a montanha.
pausas incríveis.
o trabalho volta a consumir.
a música se (e re) integra.
e os jogos: todos valendo dinheiro.
todos pausas espetaculares.
comandando aquele exército de neurônios.
ludibriando este curso sonolento.
as pausas que nos distraem;
nos fazem decidir, desviar o olhar.
nos submergem num doce líquido azulado.
claro e límpido: muitos sorrisos conquistados.
a dor por dentro cessa até brotar novamente.
vivem todos drogados, eles.
provocam, interrompem, retornam ao confortável conhecido.
por um momento, deixei que continuasse.
preferi sofrer o calor que me provoca coragem.
o curso verdadeiro, incolor e condensado:
não quero mais pausas no tempo.
domingo, 22 de julho de 2007
Poemas de amor
Carolíngea
São foices, feno, ladrilhos, elmos e uma desconfiança vampírica que [fazem um império.
Os sulcos entre os dentes, os restos esquecidos das unhas proclamam o [império da vida.
Rasgadas declarações de dependência solipsista, o império do sentimento.
Existe um império distante.
Entrecortado por hesitação e êxito, burilado em milhagens de paisagens [exóticas.
Este império tem torres que são mãos.
Soldados que são pêlos.
Transpiração que são frutos.
Orelhas que são trombetas.
Lábios que são portões.
Dedos que são espadas.
E corpos que são relva.
Vem do oriente.
Seus poços escuros, seus botões de cravo, sua música popular
crescem em mim enquanto minha pele se colore com a vegetação e as
[águas dos meus olhos se tornam rios de transporte
e o barro do meu suor tijolos para erguer minha base que será torre:
suporte para batalhas no rés da pele,
um mero obstáculo contra os fortes mais distantes:
aqueles encrustrados na semente da alma, talhados na névoa fumacenta
[das escolhas, das certezas, das decisões que viram pó e se projetam [arrependimento no futuro.
Estes campos são conquistados com estacas fincadas no coração dos [erros humanos.
E que exércitos não perecem nos pântanos acres, cadáveres nos tempos
[de conquistas frustradas que enterram nossos sonhos de plenitude, de [gozo e de realização?
Quem sobrevive se dá conta de que um império só conquista outro se for
[capaz de minar a si mesmo, queimar as florestas de suas próprias [terras, extinguir o fogo fátuo de sua própria essência vital e abrir espaço
[para a entrada enérgica destes novos vapores de vida que incorporam
[aquele que não é mais você (doado), mas alguém que percebeu que
[a conquista se dá apenas quando uma vida é substituída por outra vida.
Amor Sonâmbulo
O sonâmbulo não é o amor que anda de olhos fechados.
Pisa em estofo (cama de mola) porque é amor
ou porque é sonâmbulo?
Sonâmbulos atacam geladeiras, atacam pessoas, são perigosos
são agressivos
Não se deve acordar um sonâmbulo
ou não se deve deixá-lo dormir?
Mas há um quê de floreio.
Quando imagino “sonâmbulo”, não sei bem porquê,
vêm juntas flores
Havia na matemática um recurso de deixar as coisas (deviam ser [números) em suspensão.
Será um sonâmbulo um ser em evidência?
Imagino um sonâmbulo feito d’água, meio azul, meio fofo-aquoso,
[espalhando-se por frestas da cozinha, até da sala.
Lembra-se daqueles balões d’água que a gente explodia na cara, na [gincana?
O amor possui um acabamento metálico que um sonâmbulo não tem.
Um sonâmbulo possui uma propriedade de calterização que o amor
[não tem.
Querer relacionar o amor e o sonâmbulo é uma estultice.
Meu amor não é um sonâmbulo.
Ele apenas sonambula por aí.
Futucante
Futuca essa coisa tentaculosa que deixa uma coceira que não se pode
[encontrar, debaixo da pele.
Carcome essas casquinhas, estes pequenos adereços faustosos que a
[alma e o corpo gostam de penduricar.
Investe e alimenta esses comichões que sempre se parecem com aquela
[dorzinha que nunca tem lugar, nunca tem solução, nunca tem nome.
Para se futucar, tem-se que conhecer o fundamento da própria dor, e
[respeitar as gangrenas e hemorragias que jorram nossos [questionamentos para espelhos passados.
A carne ferida (e a carne dos outros, também ferida) abre aquele olho
[mágico onde tudo cintila.
Movimento em riste, sacralidade dos ciclos da vida. O futucar é quase um
[rio que se desdobra, tem a consciência das coisas mecânicas, mas religiosas.
Se há algo que quase se depreende, é o carinho com que se mutila, se
[deteriora, se expurga.
Descasca-se pelo amor que se tem pelo que é finito, pelo que nunca se [renova.
Deixa mesmo uma impressão indelével que marca, que provoca relevo.
Futuca-se com delicadeza e precisão, amor lacrimoso, que insere na
[carne o pontiagudo instrumento de uma subjetividade titubeante.
Queria alcançar o infinito, pelo futucar.
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Os Cavalos
Cavalos!
Cavalos com ferradura de atrito poroso.
Cavalos com emblemas para selar o céu.
Cavalos como motivo de florescimento corporal.
Cavalos propulsionam as terras de defesa dos garotos galácticos.
Cavalos de um dia chegando cometas aos estábulos da criação.
Cavalos que monitoram – ascendem aos altos picos da realização.
Cavalos que transitam, indígenas, pelos pastos da pulsão.
Cavalos de capim verde que engrenam, clorofílicos.
Cavalos de êxtase, motores e trações.
Cavalos chicoteiam, superaquecem os fluxos daninhos do desespero [rascante.
Cavalos de luxúria; cavalos diabólicos.
Cavalos pangarés, para estrelas bebês.
Cavalos exatos, design de musculatura e ossos de alumínio.
Cavalos de desesperança; fagulhas de apocalipse.
Cavalos renascentistas, romances de um duradouro efeito de insurreição.
Cavalos cavalgam enquanto homens pululam em direção ao oblíquo da
[dor e dos suspiros abafados.
Cavalos relincham subservientes à temperança altiva da garotada.
Cavalos desmaiados, exauridos pelos que têm algum pudor.
Cavalos dormindo, bafejando um sonho de passear pelo arco-íris.
Cavalos ordinários, vagando maltrapilhos, inconsúteis, incorrigíveis.
Cavalos-fantasma.
Cavalos-Vontade.
Cavalos-História.
Cavalos-dínamo.
Cavalos-fome.
Cavalos-fogo.
Cavalos-fato.
Cavalos em disparada – equação do movimento.
Cavalos alados – estes já não precisam de asas.
Cavalos derretem, abstraem-se, enganados num futurismo ancestral.
Cavalos dados, de dentes quaternários.
Cavalos chegam à velocidade da luz, com olhos priscos.
Cavalos piscam, e recebem de volta o laço digno de doutrinas dêiticas.
Cavalos não iguais aos de Gulliver, já que
Cavalos são selas e não se concebem como celas.
Cavalos ao sol poente, buscando seu alimento, o elétron.
Cavalos cavados, enterrados como avestruzes.
Cavalos na moita, o menino descansa.
Cavalos coalhados, soníferos, despilhados.
Cavalos somem, no zero absoluto.
Cavalos são homens, no raciocínio astuto.
Cavalos cansados.
Cavalos calados.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
Tudo isso por um poema medíocre! Mas estamos aí. Dei uns retoques para ele ficar menos ridículo. Escrevi pouco depois de "O Sonho", ou seja, 2001, e certa vez escrevi um "O Sonho 3", com o qual eu havia ficado muito satisfeito. Mas perdi o original e o poema se foi pra sempre. É uma pena. Estou estudando a possibilidade de escrever um "O Sonho 4". Hehe.
O Sonho (2)
Encontrei uma casa
que não via há quatro anos.
Ela me apareceu translúcida
no meio de uma floresta
recheada de livros que nunca escrevi.
Encontrei um shopping, um aeroporto, amigos esquecidos.
Até o meu breve, muito breve pensamento sobre as cadências da cor [verde
foi peça chave nesse volteio de ladrilhos e portas flutuantes.
Um poço, uma cachoeira, um país estrangeiro (e retorno a ele agora).
Uma ação passada, jamais entendida, que se repete, sem encontrar [solução.
E as conversas, esdrúxulas, com pessoas que jamais existiram.
Destilando-se, as camadas da angústia.
Ociosamente, o passado e o presente se mesclam num odor neutro.
A quase-consciência, a capacidade de transformar o instante em universo.
(fractal)
Hoje, estou conversando com um meu amigo que não vejo desde os seis [anos de idade.
Subitamente, graças a uma propaganda de cerveja que eu assistira no [mesmo dia,
faço um comentário sobre mulheres loiras.
Então, estou transando aquela loira que não me olhava na oitava série.
