segunda-feira, 2 de abril de 2007

Sexto poema: às vezes, é preciso encontrar boas metáforas. Disseram-me, certa vez, que fazer poesia não é simplesmente enfileirar metáforas, como eu fazia. O grande Roman Jakobson, porém, dizia que a poesia é toda estruturada em metáforas, enquanto a prosa seria a modalidade escolhida pela metonímia para se manifestar. É claro: grande lingüista que era, Jakobson sabia que a linguagem poética é uma condensação mais paradigmática do que sintagmática. A poesia é uma acumulação vertical. O próprio acúmulo de linguagem sobreposta. Um grande poliedro que iça simbolizações de todas as direções. Pois bem: em homenagem a Jakobson, vai um poema que tem uma única boa metáfora.

O Homem Ultravioleta

O de onde vêm as coisas do homem
me esgota porque só a cabeça ferve.
Se do homem só vemos o talo,
só vemos o talo do corpo embrulhado no vento.
O talo, e as folhas (quiçá as flores) são deuses são invisíveis e perfuram
[esse coração imaginário.
O de onde vêm as coisas do homem
é suprasônico.
Talvez os cachorros o saibam
e captem no éter a vergonha que embaralha o suco que se espreme
[quando se espreme o homem.
O de onde vêm as coisas
deixa olhos irritadiços com a infravermelhidão das coisas intestinais de
[todos os homens.

Um comentário:

Baião, A. C. disse...

sem dúvida este é um dos seus poemas que mais gosto, nao me canso de ler ...
a simplicidade dele esconde "o de onde vem" de você! "o de onde vem de você" que não é tão invisível quanto a ultravioleta!
quisera eu ser completa ultra-violeta!